quarta-feira, janeiro 25, 2006

INSANIA #1

Levemente deixou-se enroscar no corpo que se lhe oferecia com eficácia. Discretamente foi-se formando um afecto impronunciável, um esgar de solicitude que lhe permitia delirar. Não era novidade. Para nenhum. Haviam silenciado esse facto. Parceiros antigos estavam já encarcerados e, afinal, ao jantar parecia irrelevante referir experiências falhadas. O encontro havia sido preparado, estava prometido há meses e não havia já dúvidas do que os tinha aproximado. Uma garfada cuidadosamente observada, um molhar de lábios verdadeiramente sensual... pausas calculadas... silêncios estratégicos. Subiram elegantemente as escadas e entraram no elevador panorâmico. Enquanto ascendiam ao sétimo piso desejaram-se imaginariamente, cúmplices naquele espaço... atiraram sorrisos. Hesitantes chocaram ao sair da cabina e já não havia retorno. A entrega fez-se chocante, demasiado explícita. Não havia nada a esconder. A posse estava eminente. Deixaram-se arrastar até ao quarto. O colchão cedeu. Os lençóis engelharam e torceram empurrados para o fundo da cama. Não houve luz. As mãos apressaram-se a estudar os corpos. Os lábios devoraram lábios e nuca e peito e o resto. A cadência... perfeita! Ritmicamente foram escalando as propriedades um do outro. Inesperadamente detiveram-se. Olharam-se confusamente. Espancando a cabeça com as mãos dirigiu-se apressadamente para a janela. Tomou balanço e estridentemente atravessou a fina camada de vidro. Resfolegou com o prazer cortante da fronteira envidraçada. Na queda, maravilhou-se com a beleza do efeito da lua nos fragmentos vítreos que o acompanhavam. O chão chegou mais depressa do que havia concebido. Aterrou de costas e não de barriga como desejara...